Quero escrever o borrão vermelho de sangue

24 junho 2017


Quero escrever o borrão vermelho de sangue 
com as gotas e coágulos pingando
de dentro para dentro.
Quero escrever amarelo-ouro
com raios de translucidez.
Que não me entendam
pouco-se-me-dá.
Nada tenho a perder.
Jogo tudo na violência
que sempre me povoou,
o grito áspero e agudo e prolongado,
o grito que eu,
por falso respeito humano,
não dei.

Mas aqui vai o meu berro
me rasgando as profundas entranhas
de onde abarca o mundo
com o terremoto causado pelo grito.
O climax de minha vida será a morte.

Quero escrever noções
sem o uso abusivo das palavras.
Só me resta ficar nua:
nada tenho mais a perder.

(Clarice Lispector)

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